segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Pássaro livre

O noivo estava nervoso. Era o dia do seu casamento.
- Pai, se arrume também - chacoalhou entre dentes nervosos e uma língua inquieta.
O pai respondeu calmamente:
- Daqui a dez minutos, filho.
Enquanto isso, em outro local, a noiva se preparava já havia algumas horas, nervosa também. Sua mãe acompanhava, de longe. Daria conselhos, se pudesse. Acalentaria sua cabeça e faria um carinho de mãe. Era o dia dela, seu dia de princesa.
E foi. Ao chegar no salão da festa, os noivos estavam alegres. Aquele sonho construído durante anos, havia se realizado. Todas as pessoas que haviam participado de suas vidas estavam ali. As mesas estavam decoradas com lindos passarinhos de crochê feitos à mão.
Por ironia do destino, em um dado momento da comemoração, dois pássaros entraram pela janela do salão. Os convidados se sentiram um pouco atordoados com a instabilidade do voo das aves.
- Nossa! Já imaginou se um deles bate no ventilador de teto? - sugeriu a noiva.
No mesmo momento, asinhas voaram pelo salão ao som do baque surdo do corpo de um dos animais. O destino do passarinho bateu de encontro a uma das hélices do vento. E então a noiva deixou de ser a estrela por alguns minutos. Um jovem recolheu os restos mortais da ave, enterrada como indigente em uma lixeira qualquer. E a festa continuou.
Pássaro, livre pássaro, ontem você perdeu a liberdade.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Gergelim

Gergelim,

Não sabemos se você é Luísa ou Fernando, mas já temos seu nome. Esse apelido provisório foi uma forma carinhosa que encontramos de lhe chamar. Mamãe entrou em parafusos quando soube que você estava na barriga dela. Eu também entrei, vou lhe confessar, mas todos os parafusos se apertaram quando ouvimos o seu coração bater. Quando vimos que você não era mais um gergelim, nossa vida mudou.
E mudou para melhor. Nos sentimos mais completos. Queremos que você chegue logo para alegrar nossas vidas. Descobrimos que o único jeito que você tem de se expressar é fazendo a mamãe vomitar aquilo que ela comeu. Acredite, Gergelim, não é uma forma de expressão muito legal, mas compreendemos que você queira interagir conosco.
Queremos que você venha logo para participar das nossas contemplações diárias. Para ficarmos olhando o tempo passar, enquanto você cresce na velocidade da luz. Já estou preparando o terceiro controle do videogame, embora saiba que você vai demorar muito tempo até conseguir jogar. E com certeza vai ganhar do papai muitas vezes.
Enquanto não sabemos se você é Luísa ou Fernando, vamos preparar nossas vidas despreparadas pra te receber, Gergelim. Só não sabemos ainda se ela vai ficar mais rosa ou mais azul. Se a nossa casa vai se encher de bonecas ou carrinhos. Se vou ter de comprar mais jogos de princesas ou de super-heróis. Mas ainda assim, você irá transformar nossas vidas, Gergelim.
Por hora, o único item que você tem é o sapato de crochê que a vovó lhe deu. Ele já está guardado para você. E não se preocupe, ele não é rosa nem azul, portanto você vai poder usar independente de ser Luísa ou Fernando. E já estamos à sua espera, com ele às mãos, ansiosos pela sua chegada.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

O canto da seriema

Pessoas normais no interior acordam com o cantar do galo. Eu tenho, pois, uma história diferente e bastante peculiar sobre o nascer do dia.
Perto da casa da minha mãe no interior, há um córrego. Todos os dias por volta das cinco da manhã, a seriema canta anunciando o amanhecer. Começa com aquele barulho intermitente e agudo formado por duas míseras notas musicais que meus parcos conhecimentos em música não permitem dizer se sol e fá ou se fá e mi ou se qualquer outro tom.
Certo é que os bichinhos cantam religiosamente antes do sol nascer e às vezes durante a madrugada, o que dá certo ar sombrio e medonho à noite. Confesso que o canto da seriema sempre me aterrorizou, principalmente, entre o período de quatro às seis da manhã, quando eu tinha de acordar para estar religiosamente no quartel às seis em ponto, durante o serviço militar obrigatório.
Nunca soube determinar se a seriema do canto era uma ou se um bando, pois animais não costumam viver sozinhos na natureza. E quando vivem sozinhos, não sobrevivem muito tempo. Outra coisa que me impressiona é ninguém ter dado conta do bicho ainda, não é possível que ele incomode somente a mim. Isso me fez concluir que a seriema pudesse ser na verdade as seriemas.
O cantar dos bichos sempre me intrigou até que um dia passando pelo tal córrego depois de muitos anos de existência eu finalmente conheci o terror de minhas madrugadas mal dormidas. Ali estava o pássaro, de penas brancas com pescoço encurvado e pernas finas como um palito de picolé. O bicho tinha uma corcunda de dar dó, mas como qualquer animal da natureza divina era perfeitamente elaborado em gracejo.
Confesso, me apaixonei pela seriema. Mas ao lembrar de seu canto, veio à tona a vontade de matar o bicho e por fim àquela sensação estranha da madrugada. Pensei e hesitei, o animal me cativara. E ele realmente não estava sozinho! Havia três seriemas que eu pude deduzir eram uma família que vivia ali.

Hoje a seriema não cantou. Sinto falta dos meus amiguinhos...

sábado, 11 de junho de 2016

Lançamento em Formiga e o que mais esperar

Dia 28 de maio, foi o lançamento da minha obra "O Mistério da Mata da Alpineia - Laços de Sangue" na minha cidade natal, Formiga-MG. O evento aconteceu na sede do COLECULT, um coletivo cultural responsável por realizações culturais no município. Foi muito legal, fui prestigiado por muitos escritores do Clube Literário Marconi Montolli (CMLL) e da Academia Formiguense de Letras (AFL), o que me deixou muito feliz, mas nada foi mais alegrante do que a presença dos poucos amigos que puderam comparecer. Tenham a certeza de que vocês se tornaram ainda mais especiais para mim por terem dedicado um pequeno e precioso tempo do seu sábado de feriado prolongado para ir lá me prestigiar. Obrigado de coração!


Queria deixar aqui registrado, o meu agradecimento à Jucielle Leal, a Ju, minha revisora, que fez questão de comparecer ao evento. Você foi essencial para melhorar as palavras desse texto e eu gostaria muito de trabalhar contigo numa próxima oportunidade. Vou escrever uma continuação, então já se prepare, pois precisarei de você mais uma vez!
E agora a novidade! Sim, eu vou escrever uma continuação da história. Não era minha intenção fazer isso no começo, mas os feedbacks que eu tenho recebido estão sendo fenomenais! E estão me fazendo pensar um monte de coisas que eu poderia ter explorado nos meus persongens. Não dá pra explicar como acontece, as histórias simplesmente surgem na cabeça e dá vontade de contar, é muito louco isso!
Isso só foi possível graças às técnicas de construção de personagens aprendidas nas diversas oficinas que eu já fiz. Lembro direitinho do Vitor Caffagi dizendo que quando você constrói uma história se baseando na personagem, fica muito mais fácil aproveitá-la depois em outros contextos e isso ficou evidente depois da publicação de "O Mistério da Mata da Alpineia". As histórias nas quais as personagens podem se envolver são muitas e cada vez mais me dá vontade de contá-las!
Por hora, a grande dificuldade é colocar o livro nas livrarias, mas como diria Fernando Sabino "A única forma de resolver um problema nosso é primeiro resolver o do outro". Quando tudo se acertar, as coisas vão dar certo.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Os primeiros empecilhos

Faz pouco mais de um mês que "O Mistério da Mata da Alpineia" foi lançado e eu estou encontrando enorme dificuldade para colocar o livro nas livrarias. Nesse ponto, a falta de uma editora é realmente um ponto que pesa, mas vou compartilhar uma experiência que me serve de exemplo.
Fernando Sabino, que, segundo alguns autores, chegou a ser o segundo escritor mais vendido no Brasil na década de 80. Ficava atrás apenas de Jorge Amado, que era promovido pela Globo com dezenas de novelas. Sabino também iniciou-se na literatura pagando a publicação de seu primeiro livro. Ele mesmo o admitiu em "O Tabuleiro de Damas", seu esboço de autobiografia: "Marques Rebelo me ajudou a publicar na Editora Pongetti, em 1941, meu primeiro livro, 'Os Grilos não Cantam Mais'. Título longo, como se usava na época: '...E o Vento Levou', 'Como Era Verde o Meu Vale', 'Doutor, Aqui Está o Seu Chapéu'... Paguei a edição de mil exemplares com a minha parte no produto da venda de um lote, que meu pai dividiu entre os seis filhos." (SABINO, 2003, p.34-35)
E anos depois ele se tornou o segundo autor mais lido no país sem a promoção do canal de televisão mais influente do Estado. Hoje, eu tenho o prazer de viver na cidade onde ele desenvolveu seus primeiros esboços e confesso que é meio louco quando eu ando pela Rua da Bahia ou pelos arcos do viaduto Santa Tereza pensando que por ali passavam os Quatro Cavaleiros, como se autodenominavam Fernando Sabino, Hélio Pelegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos.
A literatura é um ramo difícil como qualquer outro, nem por isso me faz desistir. Confesso que esperava vender muito mais na Bienal do Livro de Minas e também obter o apoio da Prefeitura de minha cidade natal para um lançamento in loco, mas num país onde a Cultura é ameaçada de extinção pelo novo presidente, podemos esperar que o discurso seja reproduzido nos níveis mais baixos.